
Vamos acreditar que ele é, no máximo, quixotesco.
Vamos absolvê-lo da demagogia de manif, da lógica reivindicativa dos excluídos, dos modos de feirante. E chamar-lhe apenas ingenuidade romântica, compromisso basista, benigna gaucherie.
Vamos ignorar o Bastonário-Bedel, e pensar no contexto.
- Como é que os advogados se deixaram representar, antes, pelos tubarões da praça e, agora, por este paladino das verdades primárias, defensor dos órfãos da sorte e dos deserdados de clientela, dos muitos e não dos bons?
- Serão os advogados, em geral, pouco inteligentes?
- Como deixaram eles o campo livre a um homem destes, para alcançar o poder?
Logo ao Marinho da ANOP, o da luta de classes encarniçada; das tertúlias semi-culturais, semi-etílicas; do mundo conquistado à luz de néon da baiuca, murro na mesa, manifestos alarves e aclamações cândidas?
E eu volto a perguntar-me:
- Serão os advogados menos inteligentes que os médicos, por exemplo? Que jamais mandatariam alguém assim para os representar?
O que justificará um circo tal, tão lamentável?
Era preciso passar do oito ao oitenta?
Trataram tão mal da sua classe que a causa caiu directa para o chão?
E eu, que 'os' conheço bem em cada campo, uma coisa sei, seguramente.
Não é por serem escassos, não é por serem menos, não é sequer por se acantonarem numa elite que os médicos jamais deixariam cair o poder em mãos assim.
E sim, seguramente, porque têm uma diferença óbvia e cristalina: - muito maior sentido de serviço.
Seria impossível que sobre isso alguma vez crescesse uma sedição assim, que deu voz às verdades de tasca.