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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Nunca mais



Fim de dia cinzento. Chuva.Frio. E o encerra-semana do costume: jantar na casa-mãe.

Neste domingo acontece uma lembrança triste, disfarçada, que vem do ciclo ritual das datas negras.
Quem pode ignorá-las.
Quem pode fingir que não recorda.
Quem não olha o lugar.
Quem não lembra o que era, como se fosse hoje.

A saudade tira-nos, a saudade rói-nos. E não é como outras que tivemos.
Esta saudade é um nunca mais.
Um nunca-mais-haverá-nada-que-cresça do lado que nos comeram.

sábado, 25 de abril de 2009

25 de Abril. A chama e o incêndio



Liceu Infanta Dona Maria

Nesse dia de Abril de 1974, ao 1º tempo, na aula de Latim, discutia-se se a revolta era de esquerda ou de direita.
Diante da Ema, a professora de olhos
com eyeliner sempre esborratado, sabedora, mas meio aparvalhada face às revelações ainda icompletas das notícias do dia.

À época, estudava-se muito, mas não se pense que éramos parvos.
Aprendemos imenso.

Tempos antes, numa viagem a Lisboa com a professora de História:
Íamos rumo à Gulbenkian, para a uma exposição de pintura sobre expressionismo alemão.
Lá para o meio, decidimos parar, ignorantes. Apenas um café, na base da Ota.
Já no bar, uns militares com bom ar aproximaram-se e, em vez de nos ralharem por estarmos a fumar - a consciência pesada devorava-nos por quase tudo, nesse tempo! - aconselharam-nos a voltar a casa, por obscuros motivos.
Era o 16 de Março. Mas fomos à exposição.
A professora era durona e nós adoravamo-la.
Aprendemos imenso.

Na viagem de finalistas, feita na Páscoa anterior:
Além da costumeira monumentália e do novíssimo Corte Inglés, ainda dera tempo para abdicar com proveito de uma ida ao flamenco, à noite. E conviver com uns guapissimos muchachos no foyer do hotel de Madrid. Com quem falámos de política, madrugada dentro e cinzanos a esmo.
Salazar, Franco, Marcelo e os americanos.
Aprendemos imenso.

No liceu, a professora de OPAN era um assombro.
Margarida RC dava-nos a matéria num único período (canja!). E, de Janeiro em diante, conversava-se sobre cultura, autores, liberdade de expressão, mundo.
Todos sabíamos que ela - aliás, très soignée -, fora interrogada pela PIDE variadíssimas vezes e era uma socialista.
E no dia 26, na aula dela, quem quis lançou os livros de OPAN ao cesto, passando o nosso manual a ser o Expresso. Semana a semana, aula após aula.
Aprendemos imenso.

Entretanto,
Ema hesitava entre as duas respostas possíveis à nossa inquietação.
- Esquerda? Direita? - Endurecimento? Libertação?
E mal o toque soou, corremos em polvorosa rumo ao gabinete da Reitora.
Tínhamos 16/17 anos, éramos séniores. Respeitáveis pré-universitárias. E boas alunas (muitas de nós inscritas no agora mal-amado quadro de honra).
Por isso davam-nos desconto na disciplina e algumas liberalidades.

Mulher inteligente, a Reitora.
Não mudou o seu estilo num centímetro, mas deu-nos as chaves para entrar no carro dela e, sob o olhar festivo-vigilante da contínua, sintonizar a BBC (era o que em casa víamos fazer).
A chama deflagrara.

À tarde não houve aulas.
O almoço foi de família italiana.
Depois saímos com os irmãos mais velhos, deambulando pela Praça em grupos cada vez maiores, para acabar em frente à PIDE, entre centenas e centenas de povo unido: uns a berrar, outros a rir, outros a chorar, outros a pensar.

Entretanto, o liceu feminino perdeu a virgindade. Entravam amigos a toda a hora.

O Sérgio, o célebre Sérgio S. - nosso colega de ano, mas no D. João III -, inflamava as hostes femininas, de giraço que era.
Culto, civilizado, brilhante, inspirador.

Falava magnificamente, como Che.
Em cima de um muro, no palco do ginásio, onde quer que fosse.
Bonito, inteligente, ardente, luminoso.
(Um cocktail fatal)

Eram as primícias do MRPP, sem que soubéssemos.
E eu sempre alinhei com eles, atrás da chama.

Não gostava nada dos malcheirosos e sebentos dos comunistas, pardos e feiosos, entre quem eu conhecia um ou outro trânsfuga.
Só sabiam pregar-nos lições de moral, ou sabotar as RGA, ou chamar-nos de filhos da burguesia e de traidores, com caras de velhos de 40 anos.

Estragaram-nos a vida para sempre (o incêndio):
-desmantelaram as faculdades.
-puseram-nos um ano à espera de nada, enquanto saneavam professores, ferozmente e à toa.
-e no fim do black-out, em Novembro de 75, ainda lá estavam pela faculdade à espera de nós, caloiros.
Continuaram por bons anos a dominar aquilo.
Greves manipuladas, desordem, boicote às aulas...
Só mesmo Sottomayor Cardia chegou para eles
e pôs termo ao baile.

O PC foi, francamente, um verdadeiro estorvo.


Ganhei em cidadania e humanidade, sim. Ganhei em tantas coisas!

Mas perdi uma escola superior como deve ser.
E esta coisa do ensino nunca mais se endireitou.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Yes, weekend!











Sim. Todo o fim de semana que se preze é um fim e um princípio.
Deve ser essa a mágica.

Regressar às raízes e à acidental casa paterna (sobretudo por isso).
À casa grande, estranha e conhecida.
Onde as paredes de granito sussuram, graves, todas as censuras do mundo pelo abandono.

Como se escondem em nós, essas razões, discretas.
Cobardes, clandestinas, invisíveis (de fora).
E as pedras, trocistas, lançam, acusadoras:
- Mas quem és tu? - Conheces-te?
E eu que lhes respondo:
- Sei que não sou daqui.

Então há o afecto abstracto, pegajoso, sem norte.
Procurando razões e resistindo ao mimetismo (tão óbvio, na recusa).

- Adoro o Minho, Pai.

Eu sei que não parece.